Angiostrongylus vasorum – o “parasita do pulmão”

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Os parasitas internos são já conhecidos de todos nós. Uns aparecem com maior frequência do que outros, alguns aparecem relacionados com a idade ou estilo de vida de cada animal e há parasitas que podem ter consequências mais graves nos nossos animais. Nesta última categoria aparece o parasita de que hoje falamos: o Angiostrongylus vasorum, o parasita do pulmão.

O Angiostrongylus é um nemátode (verme redondo) responsável por provocar uma doença nos cães denominada Angiostrongilose canina. Este parasita necessita de diferentes tipos de hospedeiros para se desenvolver e reproduzir. Requer hospedeiros definitivos (animais que são parasitados pelos parasitas adultos) e hospedeiros intermediários (animais onde se encontram formas larvares ainda em desenvolvimento).

Neste caso os hospedeiros definitivos são os canídeos (cão e raposa) e os hospedeiros intermediários são o caracol e a lesma.

As raposas são também hospedeiros reservatórios deste parasita. Com o aumento da população de raposas (animais silvestres sem acesso a tratamento), o número de cães diagnosticados com Angiostrongilose também tem vindo a aumentar.

Ciclo de Vida do Angiostrongylus vasorum

O Angiostrongylus vasorum, ou Parasita do Pulmão, é um pequeno verme que, desde o ovo ao parasita adulto, passa por 5 estádios larvares (L1, L2, L3, L4 e L5). Assim se processa o seu ciclo de vida:

1. Os canídeos infetam-se ingerindo caracóis ou lesmas contaminados com formas larvares (L3). Os canídeos também se infetam ingerindo água ou erva húmida contaminada pelas secreções de caracóis e lesmas.

2. As larvas ingeridas vão até ao intestino delgado do cão e migram para os gânglios linfáticos onde permanecem até dar origem a formas larvares mais desenvolvidas (L4 e depois L5).

3. As larvas depois migram, através do sistema linfático, até entrarem na corrente sanguínea. Atingem o ventrículo direito e as artérias pulmonares. É aqui que ocorre o desenvolvimento final e os parasitas atingem a sua forma adulta.

4. No ventrículo direito e artérias pulmonares do cão, passam a existir formas parasitárias adultas, a reproduzir-se ativamente. As fêmeas de Angiostrongylus vasorum libertam ovos na corrente sanguínea. Os ovos atingem os capilares pulmonares onde se inicia o desenvolvimento de novas larvas (L1).

5. Estas novas larvas atravessam as paredes dos brônquios e os alvéolos pulmonares, entrando nos pulmões. O cão tosse, o que ajuda as larvas a “subirem” até à faringe, onde são engolidas. As L1 percorrem todo o trato gastrointestinal até serem eliminadas para o exterior juntamente com as fezes. Estas larvas conseguem manter-se vivas durante vários dias.

6. Os caracóis e lesmas ingerem estas fezes contaminadas. Dentro deles, as pequenas larvas crescem (de L1 para L2 e depois L3) até se tornarem formas larvares infetantes. A partir daí, os parasitas estão prontos para infetar um novo canídeo.

Os parasitas adultos podem manter-se vivos durante todo o tempo de vida do seu hospedeiro. Deste modo, as infeções têm tendência a ser crónicas.

Embora qualquer cão possa ser afetado por este parasita, os cachorros são os mais suscetíveis. Pode dever-se ao facto de os cachorros serem mais curiosos e quererem experimentar tudo com a boca (incluindo ingerir caracóis e lesmas). Por este motivo, é fundamental haver um cuidado especial com o programa de desparasitação dos cães mais novos.

 

Quais são as lesões que os cães infectados podem sofrer?

 

Um cão com Parasita do Pulmão pode estar sem sintomas durante muito tempo. As alterações podem ser ligeiras, no início da doença. Mas, em estados avançados, o parasita pode causar a morte do seu hospedeiro.

Ao conhecermos o trajeto do parasita no interior do organismo do cão, conseguimos compreender melhor as lesões que podem surgir. As principais alterações verificadas na Angiostrongilose são, cardiorrespiratórias, hematológicas e neurológicas. Como os sintomas inicialmente podem ser ligeiros, é difícil aos tutores detetarem alterações que indiquem que o seu cão necessite de ajuda médica. Assim, muitos cães só são diagnosticados quando a doença alcançou já uma fase crónica, mais grave.

Que alterações podem ocorrer no corpo do nosso cão?

  • Alterações Cardiorrespiratórias
    • os ovos dos parasitas que atingem os pulmões e a migração das larvas causam irritação e inflamação. O aspeto dos pulmões altera-se e com isto surge sintomatologia respiratória (desde tosse ligeira, até dificuldade respiratória severa).
    • os parasitas adultos no interior das artérias pulmonares e do ventrículo direito, levam a um esforço no trabalho cardíaco e lesão no interior destes vasos. Há risco de trombose, hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca congestiva e hemorragias pulmonares.
  • Alterações Hematológicas e de Coagulação
    • diversos tipos de hemorragias (desde pequenas e localizadas, até severas e que colocam o animal em risco de vida).
    • podem ocorrer perdas de sangue significativas na urina, através do nariz ou boca, hemorragias na pele (petéquias e equimoses) ou nos olhos.
  • Alterações neurológicas
    • os problemas respiratórios e cardíacos podem impedir irrigação sanguínea e oxigenação cerebral suficiente.
    • os problemas de coagulação e hematológicos podem causar hemorragia ou trombose cerebral.
    • excecionalmente, pode ocorrer a migração de larvas parasitárias até ao cérebro do canino afectado (denominadas migrações erráticas dos parasitas)
  • Morte: pode ocorrer, especialmente quando não se previne nem se deteta a doença atempadamente. Os eventos responsáveis são geralmente a insuficiência respiratória muito grave ou hemorragias severas.

 

Zonas de risco

 

O Parasita do Pulmão foi primeiro identificado em França. Durante muitos anos, os casos descritos de Angiostrongilose canina estavam limitados a zonas muito específicas e bem localizadas. O parasita aparece em zonas onde o clima é temperado e húmido.

Com as alterações climáticas, o aumento de cães a viajarem com os seus tutores de um país para outro e o incremento da população de raposas próximas das zonas urbanas, tem-se visto um aumento dispersão da Angiostrongilose.

Em Portugal já foram detetados casos positivos no Norte, Centro e Sul do país. Há indícios de que o parasita se encontra disperso por todo o território nacional, considerando-se uma doença parasitária emergente. É muito provável que vejamos nos próximos tempos cada vez mais cães com esta doença.

É muito importante para a saúde dos nossos cães que cumpramos planos de desparasitação eficazes que previnam também o Parasita do Pulmão. Só desta forma podemos manter protegidos os nossos amigos e travar a dispersão parasitária pelo território nacional.

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